As mulheres representam apenas cerca de um terço dos quadros superiores e dirigentes da Administração Pública e das empresas. Ao subir-se a escadaria na hierarquia empresarial, a proporção de mulheres decresce abruptamente, sendo estas praticamente invisíveis na gestão de topo.
Entre as causas encontram-se a discriminação formal (explícita em políticas organizacionais) e informal (nas relações entre colegas e supervisores), e as diferentes preferências de homens e mulheres. Por exemplo, será que as mulheres se predispõem menos a trabalhar em ambientes altamente competitivos que caracterizam a gestão de topo?
É difícil responder a esta questão recolhendo informação nas organizações. A realidade expressa nos números permite-nos verificar a existência de desigualdades, listar inúmeras causas possíveis, mas não permite indagar a fundo sobre a importância de um ou outro factor. Assim, experiências controladas em laboratório ou em empresas tornaram-se populares também no estudo de questões de género. Saliento um estudo* recente que se propôs responder à questão acima feita. A experiência é simples. Grupos de quatro – duas mulheres e dois homens – desempenham a tarefa de somar conjuntos de 5 algarismos, de 2 dígitos cada, durante 5 minutos. A experiência divide-se em três fases. Numa primeira fase, os indivíduos são pagos à peça, consoante o número de somas efectuadas. Numa segunda fase, a função é inserida num ambiente competitivo de um torneio. O indivíduo, de entre os quatro, com maior número de somas correctas é o único a ser remunerado. Na terceira fase, os indivíduos são informados sobre o seu desempenho individual na primeira e segunda fases, e desempenham mais uma vez a tarefa, escolhendo o esquema de pagamento – ou o pagamento à peça usado na primeira fase, ou o torneio usado na segunda fase.
Neste estudo observa-se que homens e mulheres têm a mesma produtividade, quer quando pagos à peça, quer quando desempenham a função num ambiente competitivo. No entanto, quando lhes é dado a escolher em qual das situações querem desempenhar a função à terceira vez, 73% dos homens selecciona o ambiente competitivo e apenas 35% das mulheres o faz. E esta diferença persiste entre mulheres e homens com níveis de produtividade equivalentes.
Controlando potenciais causas, tais como o potencial excesso de confiança masculino, diferentes atitudes, quer face ao risco, quer quanto ao (des)agrado em ser informado sobre o desempenho pessoal, os resultados mostram que persistem diferenças nas preferências quanto à participação em ambientes competitivos.
A que se deve essa diferença? Nascemos nós, homens e mulheres, diferentes, sendo as mulheres inerentemente menos propensas a desempenhar funções em ambientes competitivos, ou são as diferenças, não apenas um produto biológico ou evolucionista, mas também resultantes de um processo de socialização? O debate "natureza" versus "ambiente" é aceso e tem ocupado cientistas e investigadores nas mais diferentes áreas de estudo. Um projecto recente, coordenado pelos professores John List da Universidade de Chicago e Uri Gneezy da Universidade da Califórnia em San Diego, do qual também faço parte, contribui para o debate. Este projecto baseia-se em experiências em sociedades em que a linhagem é definida pela mãe, nomeadamente na tribo khasi na Índia. Resultados preliminares indicam que os resultados obtidos no estudo acima referido são revertidos. As mulheres nesta sociedade são mais propensas a competir do que os homens. E, ao repetir as experiências em tribos economicamente semelhantes à tribo khasi, mas patriarcais, os resultados obtidos previamente nos Estado Unidos são reproduzidos.
Estes resultados permitem elucidar políticas de combate à desigualdade. É certo que os cromossomas X e Y nos trazem diferenças e preferências que vão além da aparência física, mas a socialização e educação desde os primeiros tempos da nossa vida marcam certamente as diferenças, instalando e reenforçando estereótipos. Quem não ouviu em criança "Não chores como uma menina" ou "não te comportes como uma maria-rapaz"?
* Niederle, M. and L. Vesterlund (2007), "Do women shy away from competition? Do men compete too much?". The Quartely Journal of Economics. August.
Sandra Maximiniano