O motor da economia está gripado 

 

Segundo as estimativas da OCDE as economias mais desenvolvidas não regressarão tão cedo a níveis robustos de crescimento.

A recuperação da crise económica já foi anunciada há meses. No entanto, os seus efeitos vão continuar a fazer-se sentir durante mais algum tempo, nomeadamente em Portugal. Segundo as estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a crise produziu um corte a longo prazo de 2,7% no potencial de crescimento da economia portuguesa.
As contas são explicadas no relatório "Going for Growth", publicado ontem pela OCDE. Apesar de o pior da crise já ter passado, a economia continua com dificuldades em arrancar. Nos próximos tempos, Portugal dificilmente regressará a níveis de crescimento robustos e o desemprego deverá continuar elevado.
«Apesar de o pior ter sido evitado, as experiências anteriores com crises financeiras indicam que não é provável que o PIB e os níveis de rendimento regressem em pouco tempo ao caminho projectado inicialmente», pode ler-se no relatório da organização.
O caso português nem sequer é um dos piores. Em média, os países da OCDE verão o seu crescimento amputado mais de 3%. A diferença está na fragilidade estrutural da economia portuguesa. A situação torna-se mais preocupante para um país que já registava crescimentos anémicos ainda antes da explosão da crise financeira.
«Com um crescimento médio de 0,8% até 2008, a economia portuguesa já era muito frágil antes da crise económica», afirma João Cantiga Esteves, professor de Finanças do ISEG. «A OCDE diz claramente que o motor da economia está gripado.»
A OCDE refere dois factores responsáveis por este corte no crescimento das economias mais desenvolvidas. Dois terços desta queda estão relacionados com o aumento dos custos de capital. Isto é, quedas drásticas de investimentos que reflectem uma dificuldade acrescida no acesso ao crédito. A economia carrega no botão Rewind e regressa a um comportamento de maior aversão ao risco que caracterizou o período pré-2000, antes do boom da concessão de crédito.
O restante terço é da responsabilidade da queda do emprego potencial, que tem como principal causa o aumento do desemprego estrutural provocado pela crise. Num cenário a longo prazo a OCDE projecta um corte de 1,2% do potencial de emprego para Portugal.




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